Encanto bairrista

Terra de Encantos”, o título que o Pe. Barbosa Campos imaginava para a sua colectânea de poemas, sugere bairrismo. Mas, embora se delicie a cantar Viatodos, distribuiu o seu amor bairrista também pelas freguesias suas vizinhas.

 

Ó Viatodos, morgadinha airosa

Que o fulgor de mil graças atavia

Vestiu-te Deus de tanta louçania,

De tantas graças que te fez vaidosa.

 

Para as vizinhas olhas desdenhosa,

De teus encantos vendo a primazia,

Vendo, feliz, que te amam à porfia

O sol, a flor, a ave e a mariposa.

 

Minha encantada solidão, motivo

De todo o meu amor, minha saudade,

Nos espinhos cruéis em que hoje vivo…

 

Minha terra natal, meu róseo berço,

Fresco jardim da minha tenra idade:

Outra não há mais linda no universo!

 

*

Quando eu morrer, abre-me o seio amigo,

Quando findarem minhas duras penas,

Que, bem eu sei, hão-de ter fim apenas

Quando na morte me abraçar contigo.

 

De tuas flores cobre-me o jazigo,

Veste-o de lírios, veste-o de açucenas

E o rouxinol, à noite, em cantilenas,

Venha alegrar o meu funéreo abrigo.

 

E se algum dia a impiedade ousada

Derribar minha cruz e, mutilada,

Pelo chão a deixar ao abandono,

 

No mesmo abraço estreita-a com meus ossos

E de nós ambos guarda meus destroços…

‘Té que eu alfim desperte do meu sono!

 

Lemenhe é lírio que plantou no monte

Linda zagala para seu recreio,

Que a vista espraia num profundo enleio

Em seu formoso, esplêndido horizonte.

 

Cada rochedo seu marca uma fonte,

Que vai, correndo em prateado veio,

Dar mimo aos prados e frescura ao seio

De toda a rosa que no vale desponte.

 

Como ela encanta, quando o dia morre

Da sua terra na elevada crista,

Da sua ermida na branquinha torre!

 

Como se alia bem, nessa hora calma,

Essa terna saudade que a contrista

Com a saudade que me inunda a alma!


 Louro é bela, pastoril donzela,

Que se deleita em seus vergéis em flor,

Que o sol da tarde banha de fulgor,

Seus raios de ouro reflectindo nela.

 

Pinhais e várzeas cercam-na em redor,

Do monte a espreita a ermidinha bela,

E o Deste[1] brando, tão bonito ao vê-la,

Corre saudoso a suspirar de amor…

 

Vive contente em tuas searas verdes,

Goza tranquila em teus rosais mimosos,

Que na beleza de outras nada perdes.

 

Se aos encantos de algumas não te guindas,

Eu sei que vêem-te olhos cobiçosos

De muitas que se têm por muito lindas.

 

Nine e Outiz olham-se amigavelmente

E conversam de longe em seus olhares.

Diz-lhe Nine: “Atravessa o vale florente,

Anda ver meus vinhedos e pomares”.

 

“Quando, à tarde, o céu límpido se ostente

- Responde Outiz – sobe estes meus lugares

E verás como é belo o sol poente,

Incendiando ao longe o céu e os mares”.

 

E ficam-se mirando as suas casas,

Que se distinguem como brancas asas

A esvoaçar por sobre o arvoredo.

 

E quem as vê atentamente hesita…

Hesita em decifrar este segredo:

Qual dessas duas seja a mais bonita.

 

Ó Minhotães, ó linda camponesa,

A quem namora, rindo, o sol nascente,

Por quem suspira quando desce ao poente,

Roubando-lhe os pinhais tua beleza:

 

Num gesto de abandono e de moleza,

Te reclinas na encosta suavemente,

Banhando os pés na límpida corrente,

Olhando ao longe a bela natureza.

 

Dona gentil de esmeraldinos prados,

Que se revestem de verdura e rosas

E onde te corre a vida sem cuidados:

 

Tuas rivais não temas invejosas

De teus magos feitiços, teus agrados:

- Serás sempre formosa entre as formosas.

 

A minha terra é delicioso ninho

Que tem perfumes, cânticos e flores

E os mil enfeites, galas e primores

Que a natureza esparge em todo o Minho.

 

Risonhas brilham entre seus verdores

Lindas aldeias, alvas como o arminho,

Veigas que tinge o azul da flor do linho,

Trigais que têm do oiro os esplendores.

 

Em noites feitas de luar, de estrelas,

Dão-lhe canções as doces filomelas,

A aura que passa, a fonte que murmura…

 

Quantos países há no mundo, quantos!

Porém nenhum de tanta formosura,

Não há nenhum que tenha seus encantos.

 

Fralães, matrona que possuiu nobreza,

Todo em ruínas, seu solar deplora,

Narrando ainda a prístina grandeza,

Poder e fausto que ela teve outrora.

 

De quantos bens e honras foi senhora,

E hoje vive esquecida... e na pobreza!

Pelas humildes vestes de pastora,

Trocou as galas ricas de princesa!

 

Mas assentada, no alto, em seus penedos,

Contempla ainda, como antigamente,

Montes, planícies, rios e arvoredos...

 

A mão dos tempos que pesou sobre ela

Tudo que tinha lhe roubou... Somente

A deixou sempre assim graciosa e bela.


 



[1] Deste: o mesmo que rio Este.

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