Encanto mariano
Os poemas de tema mariano que agora se copiam são de uma qualidade poética muito rara, em particular o primeiro do par de sonetos. Mas o poeta não ignorou os dois pequenos templos das redondezas em que a Imaculada merecia uma particular devoção dos fiéis, a Senhora da Saúde, em Monte de Fralães, e da do Carmo, em Lemenhe.
TODA BELA
Tota pulchra es et macula non est in te.
Una est perfecta mea, immaculata mea[1].
(Cant. dos
Cant)
I
Vi dos frescos vergéis a flor mais bela
e pura,
Mais
escolhida em mimo e rescendência e cor,
Da
noite constelada em o vivo esplendor
A
estrela que no céu mais límpida fulgura.
Vi
tudo quanto a mão do sábio Criador
Fez
de perfeito e belo em toda a criatura,
Desde
o profundo mar até à imensa altura
Onde
o seu sólio tem dos mundos o Senhor.
Mas
toda essa beleza esvai-se junto Àquela
Que
adorna terra e céus, tão alta e sublimada
Que
é das obras de Deus a mais formosa e bela.
Quando
Ele a criou de graça tão ornada,
Tão
cheia de seus dons, disse, com os olhos nela:
Perfeita
só és Tu, só Tu imaculada.
II
Maria, ó casta flor sempre mimosa e pura,
Do celestial jardim lírio imaculado,
Claro espelho jamais da culpa
embaciado,
Reflectindo de Deus a eterna
formosura!
Antes do tempo haver, antes da
criatura,
De Ti já o Criador se havia enamorado
Porque Te via assim, isenta de pecado,
Toda cheia de graça e cheia de
candura.
Quanto mais em teus dons e perfeição
medito,
Mais graças vejo em Ti, mais cativo me
vejo
Desse tão puro amor, do teu amor
bendito.
Mas quanto mais Te amar, mais me
entristeço e peno
Pois para o grande amor com que
amar-Te desejo
Só tenho um coração tão frio e tão
pequeno!
Senhora da Saúde, flor mimosa
Na vertente da serra, entre os
abrolhos:
A tua branca ermida prende os olhos,
Os corações tu prendes, Mãe formosa!
Lá em cima és estrela radiosa,
És nossa guia neste mar de escolhos,
E ouves as queixas que almas sem
refolhos
Vão contar à tua alma carinhosa.
Salva-te a cotovia do alto monte,
Seus gorjeios te envia o rouxinol,
Louvores reza-te a vizinha fonte...
Das nuvens da manhã sobre o lençol,
Beija-te o sol surgindo no horizonte
E tu brilhas mais linda do que o sol.
Ó Senhora do Carmo, estás tão triste,
Vendo
no ocaso a luz na agonia!
Que
pena de teus olhos se irradia,
Que
mágoa imensa no teu peito existe!
Lembras
talvez aquela dor sombria,
Em
que o teu doce coração feriste,
Quando
morreu teu Filho, quando viste
Mudar-se
em noite escura o próprio dia…
A
noite desce calma e silenciosa…
Um
véu funéreo envolve a natureza
Que
vai ficando em trevas escondida.
Mas
eis que a lua, lâmpada formosa
Por
mão dos anjos sobre o monte acende…
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